O mar!
Havia um professor de História no cursinho pré-vestibular ZAS, Afonso Botti, que invectivava-nos alertando que, como estudávamos à noite, tínhamos que nos esforçar duas vezes mais porque os concorrentes, além do dia todo para repassar as lições, não tomavam café preto e pão dormido com margarina no café-da-manhã, mas pão fresco com manteiga, ovos mexidos e suco de laranja, salada de frutas e iogurte. Ao começarem as aulas no curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Juiz de Fora percebi que quase todos os meus colegas pertenciam ao grupo do desjejum reforçado e que conheciam coisas das quais só tinha ouvido falar, como, por exemplo, o mar… Cataguases, onde nasci, fica a cerca de 270 km da cidade costeira mais próxima, Marataízes, no Espírito Santo, e ir à praia, portanto, era apenas sonho para a maioria dos habitantes, operários da indústria têxtil. Assim, completara 18 anos sem nunca ter sentido a brisa salgada acariciando meu rosto imberbe. Nas minhas primeiras férias da faculdade fui para Cataguases conformado em passar o mês enfiado em casa lendo, já que não possuía um centavo para ir a lugar algum. Um dia, em visita a meus pais. Francisco Ovídio de Aguiar Filho (Chiquinho), que casara com a viúva do meu irmão morto no ano anterior, perguntou se gostaria de viajar com ele. Chiquinho trabalhava transportando móveis para uma fábrica local, Pampulha, e iria fazer uma entrega em Conceição do Coité, sertão da Bahia. Até então eu conhecia apenas cinco cidades, além de Cataguases - Rodeiro, Ubá, Juiz de Fora, Santos Dumont e São Paulo - e percorrer 2.700 quilômetros de estrada, ida e volta, apresentou-se a mim como uma improvável aventura. Ele dispensou o ajudante e assumi o lugar. Minha mãe arrumou algumas mudas de roupa numa bolsa de napa e na madrugada de uma segunda-feira fria, 9 de julho de 1979, subi empolgado o estribo do Mercedes 1513, cara-chata, lonado, para vencermos os desafios da Rio-Bahia, mal conservada, sem pontos de apoio e abarrotada de caminhões e ônibus. O primeiro dia transcorreu sem problemas. Comemos num restaurante de beira de estrada e alcançamos Itambacuri, perto de Teófilo Otoni, onde, num posto de gasolina, tomamos banho e dormimos. No dia seguinte, fizemos uma breve parada em Itaobim para deixar uma mesa que substituiria uma peça avariada. Então, Chiquinho queixou-se de uma forte dor de cabeça - creio que enxaqueca -, que, intermitente, obrigou-nos a parar várias vezes durante o trajeto, de tal forma que somente na quinta-feira, finalzinho da tarde, atingimos nosso objetivo, Conceição do Coité. No entanto, prestes a cerrar as portas, a proprietária da loja, resistindo aos apelos de Chiquinho, disse que só poderíamos descarregar os móveis no outro dia. Resignados, voltamos ao caminhão e rodamos à procura de um lugar para jantar, já que, atrasados, tínhamos suprimido o almoço. Demorou para acharmos um restaurante, um cômodo mal iluminado numa rua sem calçamento, à porta, no cavalete com propaganda da Coca-Cola, escrito a giz o prato do dia: arroz, feijão-de-corda, macaxeira e jibóia. Nem eu nem Chiquinho sabíamos o significado de macaxeira e jibóia, e pensamos logo em alguma iguaria regional. Entramos e fomos recebidos com satisfação pelo dono do estabelecimento. Porém, antes de sentarmos à mesa, Chiquinho pediu para que nos explicasse o que eram macaxeira e jibóia. Não sabem, indagou, surpreso. Macaxeira é isso aqui!, e mostrou-nos um pedaço de raiz que conhecíamos como mandioca. Quanto à jibóia, ele nos guiou aos fundos do restaurante, destampou um baú e exibiu, orgulhoso, duas enormes cobras verdes vivas. Em pânico - tenho horror a serpentes - deixei o lugar, enquanto Chiquinho se desculpava com o homem, que insistia que devíamos experimentar, Parece carne de peixe, argumentava. Acabamos por nos servir de misto-quente no bar de um sujeito que vangloriava-se de, após morar por décadas em São Paulo, ter juntado dinheiro suficiente para regressar à terra-natal e montar aquele negócio. Chiquinho posicionou o caminhão na rua do Mercado Municipal, a uns trezentos metros da loja, e nos recolhemos. Como tenho sono leve, de madrugada ouvi barulhos, mas, devido à escuridão, não desvendei o que seriam. No lusco-fusco da manhã, despertei com a algazarra, arredei a cortininha da cabine e levei um susto. Acordei Chiquinho e falei para ele olhar lá fora. Encontrávamo-nos no meio de uma feira-livre, cercado por inúmeras barracas que ofereciam todo tipo de mercadoria, desde verduras e legumes até carne-seca, desde roupa nova até ferramentas usadas, desde galinhas, porcos e bodes vivos até peças de bicicleta. Chiquinho circulou pelo lugar e regressou desconsolado: não havia como sairmos dali. Assim, tivemos de aguardar a desmontagem da feira, por volta das duas horas da tarde, para finalmente começar a descarregar o caminhão, tarefa concluída apenas quando a noite já se anunciava. Pernoitamos em Feira de Santana, 100 quilômetros distante, pois Chiquinho queria compensar o tempo perdido. Ao longo do trajeto eu confessara que não conhecia o mar e então, na manhã seguinte, ao invés de tomar a Rio-Bahia, Chiquinho enveredou pela BR-101, em direção ao Espírito Santo. Sem carga, em dois dias divisamos o Oceano Atlântico, em Guarapari. Chiquinho parou na praia do Morro e, contente por me proporcionar aquela experiência, falou para eu descer, enquanto aguardava na cabine. Acanhado, me desfiz da camisa e do quichute. Avancei devagar pela areia e, com a calça arregaçada para não molhá-la, afundei os pés na água. Um calafrio percorreu a espinha, e, desatento, não percebi a onda que me desequilibrando lançou ao chão. Assustado e envergonhado, tornei ao caminhão para enfrentar os 350 quilômetros que nos separavam de Cataguases. No percurso, senti horríveis coceiras, mas não comentei nada para não preocupar Chiquinho. Apeei em casa, umas seis horas depois, o corpo magro mapeado de feridas provocadas pelo sal grudado na pele. Pelo menos aprendi a importância de tomar uma ducha de água doce após entrar no mar…
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